Percepções, aprendizado, verdade, mentira, vida, felicidade, teatro, cinema, futebol, basquete. Malandragem, otarice, autenticidade, hipocrisia, observação, julgamento, prazer, desprazer, piada, drama, realidade, ilusão.
O que eu vejo quando algo olho? Algo, alguém? A realidade, a espiritualidade, a superfície, o que eu vejo? Quando eu era guri, em alguns momentos eu via algo lindo, e o sorriso abria fácil. A partir de outros momentos eu via algo sujo, claro, mudando os objetos de observação. E ficava com vontade de descer a madeira, arrebentar mermo. Que coisa horrível Sereno!!!! É? Você nunca teve essa vontade? Beleza então, deves ser um santo ou santa. Por muitas vezes fui arrebentado, batizado, punido, física e psicologicamente. Algumas vezes, eu mereci, eu não entendi e tentei, paguei pela coragem, não pela covardia. Mas já fui covarde, muito covarde, nos inúmeros momentos em que decidi fugir da realidade e me entregar a tristeza, a depressão queria me pegar, e eu num saia fora, mas nem percebia, achava que era apenas um fraco, um zé, um otário vivendo fantasias, deslumbrado com elas. Achava que a autenticidade estava apenas nos meus heróis, não em mim, o mais errante. Questionava que nem Brown em Fórrmula mágica da paz: “Que mundo é esse, que porra é essa, onde tá Jesus!?”.
Lembro de algumas passagens na infância em que eu me perguntava: Porra, pra que merda foi que me trouxeram a esse mundo? Eu to cansado de ser humilhado. E sempre descontava essa raiva nas pessoas erradas. Queria o amor de quem me odiava, e não valorizava o sentimento de quem realmente me amava. Num era cegueira, é que eu queria ser amado por todo mundo, inocência, ingenuidade, imaturidade. Prolonguei essa imaturidade durante anos, atravessou a adolescencia, atingiu a fase adulta. No filme Ouro Branco, um dos personagens principais, numa conversa confidencial com seu melhor amigo, diz que num abandona o jogo em que se envolveu por conta do amor. Que o amor das pessoas para com ele é o que o mantinha alí. Amor. O que é amor? Como conseguiriamos enxergar o amor? Em seres humanos tá difícil enxergar amor. Porque? Seres humanos são humanos, eu sou um, você leitor, é outro, eu busco me conhecer e nessa busca vou decifrando-me, se tu fazes o mesmo, aos poucos tua inocência vai dando lugar a “malicia”. Não é necessário apenas se conhecer, é necessário saber admitir o que não está legal e ter vontade de mudar. Essa busca, essa vontade, a ação, a atitude, se tornam ciclos, ciclos de prática e aprendizado, prática e erro, continuamente. As vezes o choque é feroz, mudar a realidade percebida e praticada é foda! Quando está puro e “cego” os medos bobos são maiores que os medos do mal real. Aquele mal que é invisível, aquele mal envolto em perfumes, em abraços confortavelmente desaconchegantes, em sorrisos límpidos ensaiados. Nos convites. O lobo em pele de cordeiro. Poutz, da raiva!!!! E o pior é não saber o que verdadeiramente o lobo quer de você, e quem é a porra do lobo. Sozinho eu sou agora o meu inimigo intimo. Eu amo mermo, amo mermo! Por isso que odeio mermo! Decepção traz ódio. E é desse ódio que me desfaço nas linhas dos meus textos, nos babas, nas nadadas, quando pego o microfone e não me importo com minhas cordas vocais nem com os possíveis erros da letra e largo o verbo até as veias do pescoço ganharem destaque junto com o olhar. Aí da pra sentir o amor, minha cadela me ama. O cara que me deu ela me disse: cuidar de cadela é melhor, ela se apega mais, cuida mais do dono. Eu tava precisando desse cuidado. Primeiro porque não estava me amando. Segundo porque não estava enxergando o amor dos meus por mim. Os olhos dela são puro amor, num tem como num me desmanchar quando ela me vê num dia ruim e me olha com piedade pedindo pra se aproximar e ganhar um afago. Não nego, ela não fala, ela não sorri com os olhos imóveis como um boneco, apenas se aproxima, se deita e me cutuca, num preciso de mais nada depois disso. Gangsta Rap Made Me do It, nesse som Ice Cube demonstra todo o seu amor pela causa. O maluco é milionário, rapper, ator, diretor o escambau, num precisa provar mais nada pra ninguém, sempre foi considerado o melhor letrista da banca do NWA. Quando o mundo inteiro questionava o que havia acontecido com o hip-hop o maluco me lança um single nesse naipe. Será que o cara fez isso por grana? Por fama? Por moral? Ele já tem isso tudo há quase duas décadas. Mas o gueto num saiu de dentro do cara, é um guerreiro, é uma luz pra nós, respeite! Por trás dessa cara de fera, existe amor. Isso não é música, é lixo, as letras não tem conteúdo, blá, blá, blá, blá. Degradam a comunidade, blá, blá, blá, blá. Aconteceu lá, no berço, aconteceu aqui. Lá com o rap, aqui, com o rap, com o pagode, com arroxa, com qualquer manifestação independente de cabresto. Quem inicia essa movimentação toma whisky 12 anos como se bebe água. Mora em bairros “nobres” (nobre porque?) estuda onde a maioria não teve oportunidade nem de entrar. Se tornam os formadores de opinião e nos odeia. Mas finge nos amar com sorriso fabricado pelo seu dentista, com seu hálito puro, perfumado com toda a artificialidade do seu discurso. Relatos da invasão os chama de artista de praça. Quando eles percebem a impossibilidade de parar a cultura dos becos, dos bares, das casa humildes, eles tentam comprar. Claro, pra quem nunca teve nada, ter um carro, uma casa, a mulher que passa na propaganda de cerveja é como ser convidado a morar definitivamente no paraíso. Cobrar erudição em que “estudou” a vida inteira nas instituições de ensino públicas é um pouco escroto demais. Cobrar tranqüilidade de quem vive apavorado com a violência que eles ajudaram a expandir vendendo sonhos impossíveis de serem realizados pela maioria, é um pouco hipócrita demais. Sim, existe poesia, existe swing, existe verdade, existe originalidade, tanto é que os filhos deles nos imita. São seduzidos pela nossa arte, o bagulho se inverte, eles produzem filmes que vendem ilusão e criam personagens caricatos de nós, uns comem a pilha. Outros não e seguem adiante fazendo arte da alma. Essa arte chega nas ruas, seus filhos se encantam com ela e levam essa arte pra dentro de suas casa, vixi, enfurece os bico. Mas o pior é a intenção, esses vermes tentam nos colocar uns contra os outros, e por muitas vezes conseguem. Eles são detentores dos meios de comunicação mais vistos, ouvidos e lidos. Nos julgam o tempo todo e nos concordamos com as suas sentenças. Mas a maioria das vezes o sistema que eles criaram são a causa, as ações negativas ou desesperadas são as conseqüências. E eles se divertem com isso. Alguns dos seus filhos se divertem de forma mais explícita, xingando a gente de animal, queimando os descendentes legítimos da terra, etc. Na real eu já tive vontade de tocar o terror, de ser terrorista, de devolver a eles o que eles dão pra nós. Mas o amor num deixa. O amor me retira esses pensamentos da cabeça, e não permite que o nível de revolta extrapole a fronteira da civilidade (as vezes, sou humano como você). Aí vem a merda da censura, se você fala, escreve, rima, canta o que pensa no Brasil, é bom se preparar. Porque vai vir chumbo de tudo que é lado. Do cara que não te entende e acha que você é aquela caricatura de socialista dos filmes dos anos 80/90 que passavam mil vezes na sessão da tarde. Os que te entendem e vêem você como ameaça (e você é mesmo uma ameaça) a seus interesses sórdidos. Do invejoso que num consegue se desfazer de sua vaidade e somar esforços. Do frustrado que sofre dos mesmos sintomas do tipo anterior. Aí primo, tem que ter pra trocar. Tem que ter muita idéia e sangue frio em determinados momentos. Porque como diz Marcão. Vagabundo vai testar, pra ver se noiz é digno. Se perder o equilíbrio perde ponto, e eu sei do que estou escrevendo.
Mas nem tudo são espinhos, tem flor também nessa parada. Quem é vai entender as tuas palavras, a tua cara fechada quando você num tem motivos pra sorrir, e não se rende ao riso forçado pra agradar nenhum perdido. Vai sentir que cada sílaba faz sentido quando ela vem de pensamentos fundamentados e abençoados. Vai sentir a tensão da rimas pois elas são frutos desses momentos. E vai sentir a alegria das mesmas quando elas refletirem felicidade. Então irmão, você ta fazendo com amor? Tá fazendo a sua verdade? Vai sem medo de errar, uma das técnicas que to utilizando agora aprendi lendo o encarte do novo disco do D2. Escrevo, guardo, depois volto e leio tudo de novo. Pra não cair no risco de escrever por instinto e não ser claro. Por muitas vezes no passado escrevi coisas que depois eu nem sei porque escrevi. Que faziam sentido apenas no momento da escrita, ou seja, não eram clássicos, não eram atemporais como as músicas do segundo cd de Gabriel O Pensador. intitulado: Ainda é só o começo.
Bom, esse post é apenas o primeiro capítulo, ele será dividido em não sei quantos, valeu por chegar até aqui.